Os olhos de ressaca de Capitu
Reli Dom Casmurro. Bons livros são assim mesmo, não lhes
bastam serem lidos. Foram feitos para repetições. A história de Capitu e
Bentinho não difere da regra. A essência do romance é ministrada ao leitor em
doses homeopáticas: a cada nova leitura, mais clara fica a trama. Será?
Bentinho não era só apaixonado por Capitu, admirava-a em
todos os possíveis aspectos. “Era mulher de dentro para fora, à esquerda e à
direita, dos pés à cabeça”, dizia.
No início da adolescência, quando alguém os surpreendia na intimidade
das mãos unidas ou da proximidade dos rostos, atormentava Bentinho a
naturalidade com que Capitu livrava o casal de uma possível situação constrangedora, que poderia levar a censura dos pais. Capitu era natural nos gestos, nos movimentos... na alma. E o amor se aproveita das delícias do sigilo. Só inteligentinhos fiadores do politicamente
correto não compreendem essa diabrura da humanidade.
“Como pode Capitu governar-se tão bem e eu não?” O final da sentença (o "eu não") pode sugerir
ao terapeuta desavisado certo grau de ressentimento em Bentinho. Ressentimento
no sentido nietzschiano da expressão, algo como “como ela pode, de modo que eu
(muito melhor que ela) não consigo?
A feminista contemporânea, por outro lado, terá em Capitu o
retrato da mulher ideal: forte, livre, segura do seu destino, enfim alforriada
dos códigos morais da época. É uma interpretação. Se é válida, penso que não. A
leitura da sociedade com base em estereótipos é rasa, chula e não revela nada além falta de repertório.
Machado não era raso, seu gênio revela-se nas entrelinhas. Penso
que ninguém na literatura brasileira retratou melhor a natureza feminina. Capitu
submetia o mundo à sua beleza, aos seus dissimulados olhos de cigana. O frívolo
e inseguro Bentinho não estava errado quando reconheceu ser Capitu mais mulher
do que ele homem.
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